ARTIGO – Cotas: continuidade da Abolição
segunda-feira, 14 / maio / 2012
Sancionada em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi responsável pela libertação de cerca de um milhão de escravos ainda existentes no País. Representou a longa campanha abolicionista de mais de 380 anos de lutas. No entanto, aos ex-cativos não foram assegurados os benefícios dados aos imigrantes, que tiveram a proteção especial do Estado Imperial e mais tarde da República. Foram mais de 122 anos desde a abolição, sem que nenhuma política pública propiciasse a inclusão dos negros na sociedade, os quais são cerca de 52 % da população brasileira.
A primeira lei que busca fazer com que o Estado brasileiro inicie a longa caminhada para a construção da igualdade de oportunidades entre negros e não negros só veio a ser sancionada, em 2010, depois de dez anos de tramitação. Trata-se do Estatuto da Igualdade Racial, que oferece as possibilidades, através da incorporação das ações afirmativas ao quadro jurídico nacional, de reparar as desigualdades que experimentam os pretos e pardos. Este segmento que compõe a nação tem em sua ascendência, aqueles que com o trabalho escravo foram responsáveis pela pujança do capitalismo brasileiro, bem como são contribuintes marcantes da identidade nacional. Ressalte-se que não há correspondência na apropriação dos bens econômicos e culturais por parte dos descendentes de africanos na proporção de sua contribuição para o País.
O Supremo Tribunal Federal foi instado a decidir sobre a adoção de cotas para pretos e pardos no ensino superior público, e, também privado, na medida que o ProUni foi também levado à julgamento. A mais alta Corte do país decidiu que estas ações afirmativas são constitucionais. Estabeleceu assim, uma espécie de artigo 2º na Lei Áurea, para assegurar o ingresso de pretos e pardos nas universidades públicas brasileiras, e, reconheceu a constitucionalidade também do ProUni.
Também está em questionamento no Supremo Tribunal Federal, o direito das comunidades quilombolas, que na forma do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, da Constituição da República de 1988 diz que: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. Este tema reservou a Fundação Cultural Palmares a responsabilidade de certificação das comunidades quilombolas, etapa inicial no processo de titulação. Este Ato de certificar a comunidade Quilombola se dá de acordo com a Convenção Internacional, da qual o Brasil é signatário.
Atualmente, 1826 comunidades quilombolas estão certificadas, 121 títulos emitidos, 149 relatórios técnicos de identificação e delimitação estão prontos. As áreas ocupadas pelos quilombolas, cerca de 2 milhões de hectares, são destinadas a sua reprodução cultural e a sua subsistência. Nelas não há desmatamento. Os quilombolas não estão associados à grilagem, esbulho ou invasão de terras. Políticas públicas para fixá-los no campo é a garantia de paz e de crescimento ordenado das cidades. Segundo estudos, as terras agricultáveis no Brasil somam perto de 360 milhões de hectares. Ou seja, o que os quilombolas ocupam é o simbolismo da resistência histórica, em face da escravidão.
O Brasil tem coragem de olhar para o passado e lançar sem medo as sementes de construção de um novo futuro. Desta forma, podemos interpretar que tivemos o fim da escravidão como o artigo primeiro do marco legal. A educação com aprovação das cotas para ingresso no ensino superior como o artigo segundo. Ainda faltam mais dispositivos que assegurem a terra e o trabalho com funções qualificadas. Daí então em poucas décadas, e, com a implementação das ações afirmativas, teremos de fato um Estado verdadeiramente democrático, em que todos, independentemente da cor da sua pele ou da sua etnia, poderão fruir dos bens econômicos e culturais em igualdade de oportunidades.
Eloi Ferreira de Araujo – é advogado, presidente da Fundação Cultural Palmares e ex-ministro da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).







Não sou a favor de cotas para nenhum tipo de etnia, raça, religião ou outra temática.Não é de cotas que a educação brasileira está precisando,mas sim de políticos honestos, dignos e preocupados com a educação de nossas crianças ,adolescentes e adultos.
Precisamos de uma Educação de Ensino Fundamental de qualidade e inclusiva para todos:brancos, negros, ciganos, indígenas, quilombolas entre outros tipos.Claro que respeitando as particularidades de cada grupo,mas com todos inclusos numa escola de qualidade, pois ,apesar de no passado os portugues ou outros europeus terem feito feio com os negros escravos, temos ,hoje, uma desigualdade tão exorbitante que inclui brancos tão miseráveis e na exclusão quanto os negros .
Chega de tanta cota.Ensino Fundamental de qualidade para todos os brasileiros!!!
Devo parabenizar, o supremo tribunal federal, que julgou com enorme sabedoria a legalidade das cotas raciais, tanto nas universidades públicas, como no sistema PROUNI.
O medo, não foi maior que a coragem e muito menos o pessimismo, falou mais alto que a razão.
Vivemos infelizmente em uma nação, que não se curou das feridas da segregação e da escravidão de mais de 350 anos.
E vejo, que demorará, pelo menos mais 30 anos, para que os 90 milhões de cidadãos negros dessa nação, possam gozar da prosperidade material e se integrem realmente em uma sociedade, verdadeiramente justa.