Renascença Clube: o pioneiro carioca completa 61 anos

Fundação Cultural Palmares prestigia aniversário do primeiro clube social negro da capital fluminense. 

Foto: Jacqueline Freitas / FCP

Eloi Ferreira com Bira, do Fundo de Quintal, Paulo Roberto, do CEDINE, Evangelista, presidente do Renascença, e Rodrigo Nascimento.

Por Jacqueline Freitas 

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Eloi Ferreira de Araujo, e o representante regional do Rio de Janeiro e Espírito Santo, Rodrigo Nascimento, participaram da comemoração do 61º aniversário do Renascença Clube, realizada na sede da agremiação. 

Na ocasião, Eloi Ferreira confraternizou com ícones da cultura negra – alguns deles fundadores do clube – como Vó Maria, viúva do compositor Donga; ekedi Maria Moura; Ruth Pinheiro, presidente do CADON – Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves; Bira Presidente, do grupo musical Fundo de Quintal [1]; e Paulo Roberto dos Santos, presidente do CEDINE – Conselho Estadual dos Direitos do Negro, entre outros. 

Foto: Jacqueline Freitas / FCP

O presidente da FCP ao lado de Vó Maria.

 Numa noite marcada pelo encontro de gerações, o presidente da FCP demonstrou seu reconhecimento ao significado e à história do clube. “Nossa juventude precisa pedir a bênção a esses ícones e beber dessa cultura. Essas crianças que hoje estão aqui brincando com certeza serão os prosseguidores da tradição de preservar a identidade cultural do Brasil, que é a cultura afro-brasileira. Parabéns ao Renascença pela sua valorosa história”, enfatizou Eloi Ferreira. 

Durante a festa, também houve a apresentação cultural, bastante aplaudida, do grupo Filhos de Benedito, composto por membros do terreiro religioso de matriz africana Casa Pai Benedito de Angola. O grupo encenou um ato representando o sofrimento dos negros escravizados no Brasil. 

Foto: Jacqueline Freitas / FCP

Grupo Filhos de Benedito.

Origem dos clubes sociais negros

Eram os anos 1950. Os Estados Unidos vivenciavam intensos conflitos raciais, países africanos ensaiavam seus primeiros passos rumo à independência, o fantasma do racismo assombrava o mundo pós-guerra. O Brasil “do nacionalismo e da escalada crescente para a modernidade” [2] – rescaldos do regime político que ficou conhecido como Estado Novo – ganhava destaque como “o lugar da paz racial possível”. 

Pouco mais de meio século se passara desde a Abolição dos Escravos em nosso país, e permanecia a necessidade de “alevantamento moral da gente negra”, conforme descreveu o jornalista e historiador Clóvis Moura ao apontar o surgimento, naquela época, do que ele denominou “renascimento negro”. O movimento buscava como resultados a ascensão social e a desconstrução do mito da inferioridade racial, que insistia em permear o imaginário da sociedade brasileira. 

Com a Abolição, os negros e suas famílias foram segregados dos espaços dos brancos, e, em consequência, forçados a construir o seu próprio lugar. A formação dessas organizações não se deu somente como via de resistência, mas como territórios de solidariedade, sociabilidade e reconhecimento. Assim se formavam verdadeiras extensões da família afro-brasileira urbana. 

Na condição de Capital Federal, o Rio de Janeiro se transformava em berço de algumas das mais renomadas dessas organizações. Entre elas estavam o Teatro Experimental do Negro, o Grupo de Afoxé Associação Recreativa Filhos de Gandhi e a Orquestra Afro-brasileira. Pelo importante papel desempenhado na construção da identidade e do movimento negro, também ganharia destaque, em todo o Brasil, a criação dos clubes sociais negros. 

Estima-se que existam hoje no Brasil mais de 100 clubes sociais negros, distribuídos em diversas cidades, e aproximadamente a metade deles esteja no Rio Grande do Sul. Alguns já ultrapassaram um século de história como reduto permanente da cultura e dos hábitos afro-brasileiros, embora a maioria ainda enfrente os desafios impostos pela especulação imobiliária. 

Pioneiro carioca – Em fevereiro de 1951, no bairro do Meier, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, nascia o primeiro desses espaços: o Renascença Clube. Seus fundadores eram negros da classe média carioca, cansados de sofrer discriminação, inclusive, quando o assunto era o lazer. A sede do clube seria posteriormente transferida para o bairro do Andaraí, onde permanece até hoje. 

Foi ali que o “Rena” – como é popularmente conhecido – galgou fama nacional e internacional, especialmente nas décadas de 1960 e 1970. Já em 1959, o clube tivera sua primeira representante, Dirce Machado, apresentando-se em um concurso de misses, realizado no Estádio Gilberto Cardoso, o Maracanãzinho. 

Quatro anos depois, Aizita Nascimento sairia das passarelas para os palcos, como atriz. Em 1964, Vera Lúcia Couto foi eleita Miss Guanabara e a segunda colocada no concurso de Miss Brasil, quebrando tabus e destacando-se como a primeira negra a se classificar em um certame internacional de beleza. 

Os anos 1970 também foram determinantes na trajetória do clube, com a consagração dos bailes de black music na “Noite do Shaft” – evento que era realizado sempre aos domingos, inspirado em um seriado norte-americano cujo personagem principal era um policial negro. 

Depois de quase uma década fechado para obras, o Renascença Clube retomou suas atividades nos anos 1990 com rodas de samba que costumam atrair público de toda a cidade.

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[1] O grupo Fundo de Quintal surgiu no final da década de 1970, formado a partir do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, da cidade do Rio de Janeiro. O Fundo de Quintal tornou-se uma referência original no estilo pagode por usar instrumentos até então pouco comuns em rodas de samba. O grupo tem como madrinha a cantora Beth Carvalho e por ele já passaram outros nomes consagrados, como Almir Guineto, Jorge Aragão e Arlindo Cruz.

[2] SILVA, Joselina. A União dos Homens de Cor: aspectos do movimento negro dos anos 40 e 50. Estudos Afro-asiáticos, ano 25, nº 2, 2003, pp. 215-235. 

 

De |março 19th, 2012|Destaque, Notícia|Comments Off on Renascença Clube: o pioneiro carioca completa 61 anos