Grupo quilombola lança CD de música com apoio da Fundação Cultural Palmares


A comunidade quilombola de São Félix, localizada no município de Chapada Gaúcha, no noroeste de Minas Gerais, lançou, recentemente, um verdadeiro legado cultural à sociedade brasileira. Trata-se do CD Homenagem aos três reis, que reúne músicas e cantorias tradicionais preservadas há séculos pela comunidade.


 



 


 


 



 



 


 


 


O projeto Música Tradicional da Comunidade de São Félix começou quando a Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Vale do Rio Urucuia estava executando outro projeto na comunidade, denominado Bases de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades Quilombolas do Urucuia Grande Sertão, em parceria com a SEPPIR.


 


Inicialmente, o projeto BASES visava promover a inclusão social, a promoção dos direitos humanos, cidadania, oportunidade de empregos, além do desenvolvimento de diversas oficinas para estimular uma mudança social nas famílias da comunidade, bem como, o protagonismo juvenil. A partir dessas oficinas, surgiu a idéia da gravação do CD, o qual foi apresentado para a Fundação Cultural Palmares, que prontamente apoiou o projeto.



Treinamento dos tocadores para gravação do CD


O projeto teve início no mês de fevereiro deste ano, com a capacitação dos instrumentistas e cantores. Já em maio, foi montado um estúdio completo que ficou instalado durante quatro dias na comunidade. Toda a parte de produção foi encerrada no mês de julho.


 


A Fundação Palmares foi responsável pelo financiamento de todo o projeto. Por meio da parceria, foi possível renovar todo o conjunto de instrumentos musicais, produzir e gravar o CD, divulgando o talento cultural dos quilombolas.



Estúdio montado dentro da escola da comunidade


Instrumentos foram adquiridos com o apoio da Fundação Cultural PalmaresCom a aquisição dos instrumentos, a prática musical se tornou mais intensa e constante, garantindo-se a preservação da memória musical. Os jovens, agora, têm mais oportunidades de aprender e se aprimorar na execução dos instrumentos e do canto, resultando já em um visível aumento da participação do grupo nos calendários de festas locais e regionais.


 


De acordo com a Agência Vale do Urucuia, o processo de implantação de projetos na comunidade de São Félix é constante, “pois consta do nosso planejamento estratégico de redução das desigualdades de gênero, raça e geração. No momento trabalhamos na comunidade alguns projetos de diversificação da base produtiva para inclusão social da comunidade tais como: apicultura, extrativismo, mandiocultura”, explica Irene, uma das organizadoras.


 





Sobre a Comunidade


 


A Comunidade de São Félix está localizada no sertão mineiro, numa região onde o cerrado se encontra com o semi-árido, pontuada por veredas, onde estão as nascentes que abastecem córregos e rios da bacia do Rio Urucuia, afluente do São Francisco – localizada no município de Chapada Gaúcha, no noroeste de Minas Gerais.


 



Casa da vó Amélia – matriarca da comunidade quilombola de São Félix


São Félix tem uma população formada por pouco mais de 80 pessoas, tendo como matriarca, Vó Amélia. Ela é mãe, avó e bisavó da maioria dos seus habitantes. Suas lembranças mais antigas se referem a um tempo em que tudo era cultivado e feito ali mesmo: o algodão com que se fazia o fio para tecer as cobertas, as redes, as roupas, a mandioca de onde se tirava a farinha, o polvilho e puba, o sabão de tingüi, o remédio do mato, o azeite de mamona para manter acesa a luz da lamparina à noite, enfim, tudo de que necessitavam. Ainda se lembra do barulho das peças de madeiras do bilro nas mãos de sua mãe a fazer renda. Ela fala com saudade de um tempo em que jovens e velhos se reuniam para as brincadeiras de roda, umbigada, cantorias, festa de Reis, Santo Antônio, Santa Luzia.


 


A identidade cultural da comunidade está bem preservada e muito dos seus costumes ainda serão mantidos e apreciados por muito tempo.


 




O projeto musical


 


O relativo isolamento da comunidade de São Félix, ao longo de sua história, contribuiu para a preservação de sua tradição musical. A Folia de Reis e a Festa de São Gonçalo estão presentes num calendário de festas que reúne as comunidades vizinhas em dias de ensaios e realização. É uma herança que tem sido cultivada pelas famílias. Porém, atualmente, os mais velhos têm percebido que a motivação dos jovens pode ser abalada pelo interesse que a cidade desperta em todos, como perspectiva de conhecer novos mundos e dominar outros códigos, ameaçando as práticas que agregam e constituem a identidade local.



Jovens contando histórias ao lado de uma fogueira


A dificuldade de realizar os encontros informais que reúnem os jovens e os mais velhos na preparação para as festas do calendário local é maior em razão do estado de desgaste dos instrumentos musicais, fato que tem desmotivado ainda mais o grupo de cantores e instrumentistas. “Nós, tendo os instrumentos, vamos poder tocar e dar oportunidade para os jovens acompanharem, assim como nós aprendemos com os mais velhos. Podemos praticar e ensinar os jovens a tocar e cantar para segurar essa cultura”, diz José Ferreira, músico quilombola, responsável pelo pandeiro e vocal do grupo.De acordo com ele, a comunidade tem perdido muitas oportunidades de fazer apresentações em encontros regionais pela falta dos instrumentos.


 


Os projetos de desenvolvimento levados para a comunidade de São Félix têm exigido a superação do isolamento para uma inserção no cenário regional, como produtor e participante de ambientes de comercialização, como feiras, exposições.


 


Momento de gravação do CD


Como estratégia dessa inclusão, foi proposta pelos consultores do projeto, a gravação de um CD para divulgar o talento musical da comunidade, como marca identitária e produto a ser distribuído por ocasião das feiras e encontros de comercialização. “Com a gravação do CD, vai ser um incentivo muito grande. Queremos que os jovens participem, vamos fazer uns ensaios com eles, para acertarem a voz, porque os cantos dependem de muita voz”, comenta o panderista.


 


Assim, com o esforço e o apoio da Fundação Cultural Palmares e da Agência Vale do Rio Urucuia o projeto de fortalecer a tradição musical na comunidade de São Félix tornou-se realidade e hoje é elemento fundamental de identidade cultural e inclusão no cenário regional.


 


Equipe de músicos:


Instrumentistas


José Ferreira dos Santos – canto e pandeiro


Valdir Vieira da Costa – cantor


João Batista – violão


Osmar Ferreira Barbosa – cavaquinho


Otílio Rodrigues Pereira – caixa


Dionísio Ferreira dos Santos – viola caipira


Domingos Olivar Batista – sanfona


Salvador Barbosa Ferreira – violão


 


Cantores


Maria das Dores Batista


Fabiana Rodrigues Vieira


Edmar Rodrigues Ferreira


Vó Amélia


Fábio Mendes Amaral


 




Sobre a Agência Vale do Rio Urucuia


 


A Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Vale do Rio Urucuia, organizadora do projeto, é uma sociedade civil, sem fins lucrativos, que vem atuando na região desde o ano 2000, tendo como principais objetivos: promover o desenvolvimento humano e sustentável do território Urucuia Grande Sertão, através da gestão do conhecimento e estímulo ao protagonismo local, diversificação da base socioprodutiva e economia solidária, com foco na redução da pobreza e das desigualdades.


 

 

 

De |setembro 22nd, 2008|Notícia|Comments Off on Grupo quilombola lança CD de música com apoio da Fundação Cultural Palmares

Compartilhe esta história, escolha sua plataforma!