Centenários Negros – Carolina de Jesus

Filha de negros, Carolina de Jesus nasceu em Sacramento, estado de Minas Gerais, no dia 14 de março de 1914. Filha ilegítima de um homem casado, foi mal tratada durante toda a infância. Aos sete anos, foi forçada por sua mãe a frequentar a escola depois que a esposa de um rico fazendeiro pagou as despesas dos seus estudos.

Em 1937, sua mãe morreu e ela se viu impelida a migrar para a metrópole de São Paulo. Carolina construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer outro material que encontrasse. Ela saia todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. Quando encontrava revistas e cadernos antigos, guardava-os para escrever em suas folhas. Começou a escrever sobre seu dia-a-dia, sobre como era morar na favela.

Em seu diário, ela detalha o cotidiano dos moradores da favela e, sem rodeios, descreve os fatos políticos e sociais que via. Ela escreve sobre como a pobreza e o desespero podem levar pessoas boas a trair seus princípios simplesmente para assim conseguir comida para si e suas famílias. Seu diário foi publicado em agosto de 1960, após ser descoberto pelo jornalista Audálio Dantas, em abril de 1958.

A tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou em uma semana. Embora escrito na linguagem simples e deselegante de uma pessoa sem muita instrução, seu diário foi traduzido para treze idiomas e tornou-se um best-seller na América do Norte e na Europa.

A história de Quarto de despejo foi retratada para o cinema através do curta “Carolina”, do cineasta Jeferson De. Lançado em 2003, a filme se passa em um quarto onde Carolina mora com a filha, Vera Eunice. Cercada por uma realidade de miséria, desespero e preconceito, ela desabafa e extravasa suas angústias por meio das palavras. O filme cria uma envolvente atmosfera teatral recheada por imagens históricas da própria Carolina e de longos (porém necessários) períodos de silêncio.

É a atriz Zezé Motta quem interpreta Carolina no curta. Segundo ela, o papel lhe despertou muitas emoções. “Ela era uma figura que eu já admirava muito, já tinha lido o livro, e quando eu fui convidada pra fazer o papel eu pensei ‘nossa eu tô sonhando”. Foi muito emocionante, afinal, eu estava interpretando um ídolo, e ao mesmo tempo foi muito doloroso, porque não era um personagem de ficção, ela realmente tinha sofrido tudo aquilo”, conta.

A atriz afirma ainda que o que mais a impressiona na história de vida de Carolina, é o fato da escritora ter passado por momentos tão difíceis, e ainda assim pensar no coletivo. “Uma coisa que me impressiona muito na Carolina é que apesar de toda a miséria, ela pensava grande em termos de Brasil. Ela se preocupava com o país. Ela não passava o tempo escrevendo sobre o problema pessoal dela, mas ela escrevia sobre a miséria e a fome no nosso país. Sobre o lado mesquinho do ser humano. O seu maior legado com certeza é o significado da sua força. Ela era uma mulher tão frágil e ao mesmo tempo tão forte”, analisa.

Além do Quarto de despejo, Carolina escreveu também Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de fome (1963), Provérbios (1963) e Diário de bitita (1982, póstumo). Carolina de Jesus morreu em 1977, aos 62 anos.

De |março 13th, 2014|Sem categoria|Comments Off on Centenários Negros – Carolina de Jesus