Madame Satã: o arquétipo da malandragem

No dia 25 de fevereiro de 1900 nasceu João Francisco dos Santos, o Madame Satã, arquétipo da malandragem carioca, embora fosse pernambucano de Glória do Goitá. Satã, figura emblemática da vida noturna e marginal do Rio de Janeiro, residia e frequentava a boemia da Lapa, sendo, na primeira metade do século XX, talvez seu personagem central.

Criado numa família de 17 irmãos, teria passado pelo Recife antes de chegar ao Rio de Janeiro, em 1907. Irônico, extrovertido e, a um só tempo, desconfiado, como prega a cartilha do malandro, Satã se tornou famoso na Lapa devido às brigas em que se metia, muitas delas travadas com policiais, a golpes de capoeira.

Em entrevista concedida ao jornal O Pasquim, no ano de 1971, justificou sua predileção por brigas com agentes da polícia: não tolerava o tratamento que davam às pessoas, principalmente quando eram consideradas suspeitas, tornando-se ainda mais violentos, como ainda hoje costumam ser, quando se tratavam de pobres, negras e homossexuais, três identidades que Madame Satã acumulava.

Somado a esses três marcadores identitários, o fato de ser analfabeto o limitou a subempregos e à vida marginal. Foi um exímio cozinheiro e grande folião. Seu apelido surgiu em decorrência de uma fantasia que montou para o desfile do bloco de rua Caçador de Veados, no carnaval de 1938. Batizou sua fantasia de Madame Satã, inspirado em filme homônimo de Cecil B. DeMille, e ganhou o concurso daquele ano. Seu último desfile ocorreu em 1941.

Na boemia, além da malandragem e da marginalia, conviveu e fez amizade com muitos artistas que integraram a Era de Ouro das rádios nacionais, dentre os quais Chico Alves, Noel Rosa, Orlando Silva, Vicente Celestino e Aracy de Almeida.

Ao longo de seus 76 passou mais de 27 preso, entre inúmeras idas e vindas. Na cadeia, afirmava ter convivido com muitos presos políticos, inclusive, com Luís Carlos Prestes, a quem considerava um grande companheiro, o qual desprezava quaisquer tipos de regalias.

De acordo com Paula Lacerda, para Gilmar Rocha, autor de O Rei da Lapa: Madame Satã e a Malandragem Carioca – Uma história de violência no Rio de Janeiro dos anos 30-50, “a malandragem fornece pistas para a reflexão sobre aspectos da sociedade brasileira, tais como a violência, a honra, a valentia e a malícia, inseridos em contexto de classes populares.” E acrescenta: “o modelo de honra vigente na malandragem tem seu arcabouço no campo da sexualidade. A moral dos homens, neste sentido, se vincula à sua virilidade e à pureza sexual das mulheres que o circundam.”

Talvez exatamente por isso, a figura de Madame Satã chame tanta atenção, pois mesclava a essa virilidade que constitui a persona do malandro, sua homossexualidade e as performances artísticas nos carnavais.

Madame Satã, que para o jornalista Paulo Francis era mais autêntico e sofisticado do que Jean Genet (flâneur, poeta, dramaturgo e escritor francês, autor de Diário de um Ladrão), foi casado com a mesma mulher desde seus 34 anos. Tinha 6 filhos de criação (adotivos), dos quais uma tornou-se, segundo ele, funcionária pública do Ministério da Justiça e outro, delega­do de Polícia.

Até hoje, Madame Satã inspira o imaginário popular e artístico. Em 2002, o ator Lázaro Ramos o interpretou num filme sobre sua vida, premiado dentro e fora do Brasil. Já em 2015, a escola de samba Portela o homenageou durante o desfile que celebrava os 450 anos da cidade do Rio de Janeiro.

Fonte:
http://goo.gl/xgjcs6
http://goo.gl/bvvSSE
https://goo.gl/Z4pTl6

De |fevereiro 26th, 2016|Notícia|Comments Off on Madame Satã: o arquétipo da malandragem