Vanderlei Cordeiro de Lima – a representação viva do espírito olímpico

Dentre os desportistas brasileiros que ganharam projeção internacional, na virada do século XX para o século XXI, um dos principais nomes foi o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima.

Nascido em Cruzeiro do Oeste, interior do estado do Paraná, em 4 de julho de 1969, numa família de lavradores, formada por sete irmãos, Vanderlei cresceu na cidade de Tapira-PR. Assim como todos de casa, aprendeu desde cedo a lidar com a terra e, ainda criança, passou a trabalhar como boia-fria nas plantações de cana-de-açúcar e café da região.

Foi em meio ao verde-prata das folhas da cana que o menino Bodega, como era conhecido, à revelia da dureza do trabalho, encontrava espaço e tempo para brincar. O gosto pela corrida emergiu em Vanderlei já nesse período.

Correr era sua diversão predileta. Em vez de correr atrás da bola, como os outros meninos, Bodega preferia correr por correr. A frequência com que realizava essa prática esportiva, embora o fizesse mais pelo prazer do que pelo atletismo, chamou a atenção do professor de educação física de sua escola, Arnei César Moreira, que o convidou para participar dos jogos interescolares da cidade. Sua participação garantiu a vitória à Escola Estadual Castelo Branco e, a partir disso, Vanderlei passou a dedicar-se aos treinos.

Começou a participar de campeonatos regionais e ganhou destaque ao conquistar o 4º lugar no Troféu Maringá, aos 16 anos. Passou a representar o município de Maringá em competições regionais. Como suas marcas e conquistas continuaram, em 1988, foi convidado para integrar a equipe Eletropaulo, treinando com o técnico Humberto Garcia de Oliveira e competindo para provas de pista em São Paulo. Permaneceu aí até 1990, quando mudou para a equipe da União Esportiva Funilense, sediada em Campinas-SP.

Seu treinador, Asdrúbal, faleceu em 1992. A partir desse momento começou a treinar com Ricardo D’Angelo, com quem seguiu por toda sua carreira.

Foi ainda em 1992 que o nome Vanderlei Cordeiro de Lima foi apresentado a seus compatriotas, quando o atleta chegou em 4º lugar na Corrida de São Silvestre.

Todavia, seu foco permanecia sendo as corridas de cross-country, modalidade a qual se dedicava desde 1989 e por meio da qual iniciara sua carreira internacional. Em 1994, no entanto, foi contratado como coelho (atleta que corre na frente dos competidores que detêm reais condições de vitória, impondo o ritmo inicial da prova) para a Maratona de Reims (França). Como se sentia bem quando atingiu a marca dos 21 km, momento em que se esperava que abandonasse a corrida, continuou até o fim e acabou vencendo-a com o tempo de 2:11.06. Pode-se dizer, portanto, que Vanderlei Cordeiro de Lima foi escolhido pela maratona e não o contrário.

Apesar de ter conquistado, no ano seguinte, o Campeonato Sul-americano de Cross-Country, disputado em Cali (Colômbia), passou a se dedicar plenamente às provas de 42km. Isso o levou ao título da Maratona de Tóquio (1996), com a marca de 2:08:38, estabelecendo novo recorde sul-americano e se classificando para as Olimpíadas de Atlanta, no mesmo ano. Nessa edição dos Jogos Olímpicos, um problema com seus tênis de corrida comprometeu sua performance.

Em 1998, entretanto, Vanderlei volta a obter bons resultados, chegando em 2º lugar em Tóquio (2:08.31, quebrando seu próprio recorde sul-americano) e em 5º lugar na Maratona de Nova York, em 2:10.42.

Em 1999, o maratonista brasileiro conquistou o 1º lugar na maratona dos Jogos Pan-americanos de Winnipeg (Canadá) e voltou a alcançar marca olímpica ao subir no terceiro lugar do pódio na Maratona de Fukuoka (Japão).

Contudo, mais uma vez, Vanderlei não atinge um resultado condizente com as conquistas alcançadas no período pré-olímpico. Devido a uma inflamação no pé e a uma contusão mal curada, chegou apenas em 75º lugar nas Olimpíadas de Sidney (Austrália, 2000), após parar para caminhar em três momento durante a prova.

Os maus resultados olímpicos do atleta, não tiram o brilho de sua carreira. Durante o novo ciclo olímpico de quatro anos, Vanderlei teve duas grandes conquistas: a vitória na Maratona Internacional de São Paulo, em 2002, cravando o tempo de 2:11:19 (melhor marca para uma prova de maratona disputada em território nacional até hoje), e o bicampeonato pan-americano, conquistado nos Jogos de Santo Domingo (República Dominicana), em 2003.


Jogos Olímpicos de Atenas

Após iniciar o ano de 2004 vencendo a Maratona de Hamburgo (Alemanha), podia-se dizer que Vanderlei Cordeiro de Lima chegava às Olimpíadas de Atenas no auge de sua forma física e entre os favoritos para conquistar a maratona, embora tivesse pela frente adversário como o supercampeão Paul Tergat (Quênia), o campeão europeu Stefano Baldini (Itália) e o medalhista de prata nas Olimpíadas de Sidney Erick Wainaina (Quênia).

O percurso foi o mesmo da primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna: iniciava na cidade de Maratona e terminava no estádio Panathianaiko, em Atenas. Embora com uma concorrência alto nível, antes mesmo da metade do trajeto Vanderlei descolou-se do pelotão e correu sozinho, liderando a disputa por mais de uma hora e abrindo cada vez mais vantagem sobre os demais corredores.

Quando se encontrava a pouco mais de sete quilômetros da chegada no imponente estádio ateniense, com cerca de 25 a 30s de diferença – algo em torno de 150 m – sobre os demais corredores e a medalha de ouro parecia eventualmente ganha, Vanderlei foi atacado no meio da rua por um espectador, o ex-padre irlandês Cornelius Horan, que o jogou fora da pista. Ajudado por um espectador grego, Polyvios Kossivas, a se desvencilhar do agressor, voltou à prova ainda na liderança, mantendo a metade da vantagem que tinha.

Porém, o susto e o estresse emocional ao qual foi submetido tinham nitidamente atingido o rendimento do atleta brasileiro e era difícil acreditar que ele conseguiria chegar entre os 10 primeiros. Movido por um elevado espírito esportivo, no entanto, Vanderlei resignou-se, recuperou-se e entrou no estádio olímpico sob a aclamação de uma plateia emocionada. De braços abertos, com um largo sorriso no rosto e os olhos mareados, numa das cenas mais marcantes daqueles Jogos, o maratonista cruzou a linha de chegada em 3º lugar, conquistando a medalha de bronze olímpica.

Após os Jogos de Atenas, Vanderlei continuou a participar de competições, mas já sem conseguir apresentar boas performances. Nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007, foi escolhido para ser o porta-bandeira da delegação brasileira, uma forma de reconhecimento por seus feitos esportivos. Contudo, na disputa da maratona foi obrigado a abandonar a prova por problemas musculares.

Encerrou sua carreira após disputar a Maratona de Paris, em 2009.


Medalha Pierre de Coubertin e outras premiações

A perseverança, a altivez e a humildade de Vanderlei Cordeiro de Lima durante a maratona da Olimpíada de Atenas foram reconhecidas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que o premiou com a Medalha Pierre de Coubertin*, condecoração máxima de cunho humanitário-esportivo, por seu elevado espírito olímpico. O maratonista brasileiro é o único latino-americano que recebeu essa honraria, que é concedida pelo COI não em decorrência do desempenho técnico do atleta, mas por suas qualidades morais e éticas demonstradas em situações complexas ou inusitadas que se apresentam no momento da disputa dos Jogos.

Ainda em 2004, o maratonista recebeu alguns outros prêmios. Na Espanha, foi homenageado com o Prêmio Ernest Lluch, concedido anualmente a personalidades do mundo esportivo que se destacam pela conduta exemplar e civismo nas competições. Em sua pátria, foi o grande congratulado do Prêmio Brasil Olímpico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), conquistando as categorias Melhor Atleta do Ano, Personalidade Olímpica do Ano e Melhor Atleta do Atletismo Brasileiro do Ano.

Em 2012, após ter tido a honra de carregar a tocha olímpica, foi presenteado com uma das que foram confeccionadas para a edição da competição em Londres.

Recentemente, em 2014, recebeu das mãos do bicampeão olímpico da vela, Torben Grael, o Troféu Adhemar Ferreira da Silva**, considerada a mais importante premiação conferida pelo COB, cujo objetivo é homenagear atletas e ex-atletas que perpetuam os valores do esporte olímpico.

* O nome dessa condecoração homenageia o idealizador e criador dos Jogos Olímpicos modernos, Barão Pierre de Coubertin, que também presidiu o COI entre 1896 e 1925.

** A premiação do COB homenageia o brasileiro bicampeão olímpico no salto triplo, cuja carreira e a vida foram marcados pela ética, eficiência técnica e física, esportividade, respeito ao próximo, companheirismo e espírito coletivo.


Fontes:

https://goo.gl/lYpCIU
http://www.vanderleidelima.com.br/site/historia.php
http://goo.gl/SiSrWH
https://goo.gl/cXlV5s
https://goo.gl/RFqz32
http://coubertin.org/pages/en/pdc.html
http://goo.gl/5MzJlj

De |março 23rd, 2016|Notícia|Comments Off on Vanderlei Cordeiro de Lima – a representação viva do espírito olímpico