Janeth Arcain, uma atleta que não reconheceu limites


Entre os anos 1980 e os anos 2000, o basquete feminino brasileiro experimentou seus principais momentos de glória. Foi uma geração de ouro, da qual se destacavam Hortência, “Magic” Paula e Janeth. Esse trio protagonizou conquistas formidáveis, como o ouro nos Jogos Pan-Americanos de Havana (Cuba), em 1991, a prata nos Jogos Olímpicos de Atlanta (EUA), em 1996, e a inesquecível medalha de ouro do Campeonato Mundial de 1994, ocorrido na Austrália.

Janeth dos Santos Arcain, um dos grandes nomes dessa geração, nasceu em Carapicuíba, interior de São Paulo, no ano de 1969. Começou a jogar basquete aos 14 anos. Seu primeiro clube foi o Higienópolis, de São Paulo. Dois anos depois, 1985, já conquistava seu primeiro campeonato regional, em 1986 ganhou o sul-americano de clubes e em 1987 conquistou a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis (EUA), pela seleção principal, embora tenha competido até o ano de 1989 pela seleção brasileira juvenil de basquete.

A ascensão foi meteórica, mas Janeth manteve-se como atleta de alto rendimento por duas décadas. Inicialmente, atuava como uma coadjuvante de luxo, já que, quando ingressou na seleção brasileira, Paula e Hortência eram as grandes estrelas, estavam em pleno vigor físico e encontravam-se no melhor momento de suas carreiras. Não obstante, isso não foi empecilho para Janeth firmar-se também como uma jogadora referência dentro de quadra.

Quatro anos após o Pan de Indianápolis, quando praticamente estreava na seleção brasileira, ocasião em que marcou meros 12 pontos em 5 jogos, Janeth mostrava ter ganho maturidade e se aprimorado como ala, melhorando nos fundamentos, diversificando suas jogadas e demonstrando mais segurança e habilidade, apesar de ainda ter apenas 22 anos.

O mesmo se dava com a seleção brasileira que vinha numa trajetória de ascensão e melhora de resultados nas competições continentais. O Brasil havia sido 4º lugar nos Jogos de San Juan (1979), 3º lugar no Pan de Caracas (1983) e 2º lugar em Indianápolis (1987).

Atletas brasileiras ouvem o hino nacional no pódio - Pan de Havana

Nos Jogos Pan-Americanos de Havana (Cuba), 1991, o Brasil foi à final com as anfitriãs. A forte seleção cubana era a favorita, pois jogava perante a sua torcida. No entanto, o time brasileiro deu uma aula de basquete, marcando forte e errando poucos arremessos. Ao final, o placar de 97 a 76 e a qualidade da equipe brasileira impressionou o presidente de Cuba, Fidel Castro, que fez questão de descer à quadra para fazer pessoalmente a entrega das medalhas às brasileiras. Entre elas estava Janeth Arcain, que em seis jogos marcou 87 pontos.

A partir desse título, a seleção feminina de basquete vivenciou a década mais vitoriosa de sua história. O Pan de Havana representou uma verdadeira guinada no basquete brasileiro, que passou a ser tratado com mais respeito pelas adversárias e começou a despontar no cenário internacional da modalidade como uma equipe competitiva e poderosa.

Festa em comemoração ao título mundial inédito

Dali a três anos, se deu o Mundial da Austrália. O Brasil não figurava dentre as favoritas, mas aos poucos a equipe foi adquirindo confiança e, apesar de ter sofrido duas derrotas, avançando nas fases. O Brasil venceu Cuba e Espanha na segunda fase, os Estados Unidos na semifinal (a seleção americana só voltaria a sofrer outra derrota após 12 anos, dessa vez para a Rússia), com o apertado placar de 110 a 107, e deu a revanche sobre a China, na grande final, quando conquistaram o título inédito e, até hoje, o único mundial da seleção feminina de basquete, com o placar de 96 a 87. A jovem Janeth, à época com 25 anos, foi a cestinha nessa partida, marcando em toda a competição 149 pontos.

O, então, técnico da seleção Miguel Ângelo dá uma dimensão da conquista: Ninguém tinha ganhado um Mundial além de Rússia e Estados Unidos. Depois que ganhamos das americanas, criaram a WNBA. Ninguém imaginava, só a gente acreditava. Quebramos todos os paradigmas.”

Olimpíadas de Atlanta (1996)

Em 1996, o Brasil chegou às Olimpíadas de Atlanta (EUA) como uma das favoritas e, de fato, fez uma campanha espetacular, embora tenha perdido a final para a seleção americana. A conquista da medalha de prata nessa edição dos Jogos Olímpicos, contudo, é considerada por Janeth como um momento inesquecível de sua carreira. E não é para menos, ela foi a primeira medalha olímpica do país em esportes coletivos femininos.

Essa conquista abriu as portas da liga americana de basquete feminino (WNBA) para Janeth, que foi convidada a integrar a equipe do Houston Comets na primeira edição do torneio, em 1997. Janeth foi a primeira brasileira a competir na WNBA.

No berço do basquetebol, a jogadora brasileira se impôs e firmou posição na equipe titular, apesar do Houston Comets contar com outras estrelas como Cynthia Cooper e Sheryl Swoopes. Nesta equipe, Janeth atuou em quase todas as posições: foi ala, armadora e ala-pivô. Nela conquistou os 4 primeiros campeonatos da WNBA, de 1997 a 2000. Em 2001, Janeth fez sua melhor temporada, entrando para o quinteto ideal da WNBA e indo para o All-Star Game (Jogo das Estrelas), como a segunda jogadora mais votada de toda a Liga.

Para que os torcedores brasileiros não a esquecessem, Janeth, ao fim da temporada estadunidense, disputava os campeonatos brasileiros e jogava pela seleção. Por aqui, atuou em equipes como Vasco da Gama, Sorocaba, Santo André, São Paulo/Guaru e Ourinhos, sempre colecionando títulos.

Nas Olimpíadas de Sidney (Austrália), no ano de 2000, Janeth era a líder da seleção brasileira, já sem Hortência e “Magic” Paula. Era a jogadora mais conhecida, a estrela, a referência. Nesta edição dos Jogos, o Brasil saiu com a medalha de bronze e Janeth foi a cestinha da equipe, vencendo a Rússia (uma das potências da modalidade) e a Coréia do Sul na decisão do terceiro lugar, ambos jogos dificílimos.

Nos Jogos de Atenas (Grécia), a seleção manteve a boa forma e ficou com o 4º lugar. Janeth continuou competindo na liga americana até 2005, sempre pelo Houston Comets. A atleta chegou a jogar ainda a temporada 2005/2006 pela equipe espanhola Ros Casares Valencia.

Janeth escolheu o Pan-Americano do Rio de Janeiro, de 2007, para encerrar sua vitoriosa carreira. A seleção brasileira perdeu a final para os Estados Unidos e ficou com a medalha de prata. Janeth entrou para a história do basquete nacional, sendo a terceira maior pontuadora da seleção, com 2.247 pontos em 138 jogos oficiais, o que dá uma média de 16,3 pontos por jogo.

Além dos títulos já mencionados, Janeth foi cinco vezes campeã sul-americana pela seleção brasileira, quatro vezes campeã paulista, campeã carioca, tetracampeã nacional e campeã sul-americana de clubes.

Entre 2009 e 2013 assumiu o cargo de treinadora das categorias de base da Seleção Brasileira de Basquete Feminino e também se tornou uma das assistentes técnicas da equipe principal. Nesse período conquistou o Campeonato Sul-Americano Sub-15 Feminino (Equador – 2009 e 2010) e, pela equipe principal, a Copa América – Pré-Mundial Adulto Feminino (Brasil – 2009), o Campeonato Sul-Americano Adulto Feminino (Chile – 2010) e o Campeonato Pré-Olímpico (Colômbia – 2011).

No ano de 2015, Janeth Arcain entrou para o Hall da Fama do Basquete Feminino, sendo a terceira brasileira a integrar o seleto grupo. Antes dela, Paula e Hortência já havia ganhado a honraria, em 2006.

Desde 2002, a ex-jogadora dirige o Instituto Janeth Arcain, que, a partir da concepção do esporte educacional e com o objetivo de democratizar o acesso ao esporte de qualidade, auxilia no desenvolvimento físico e mental de crianças de 7 a 15 anos.

Fontes:
http://goo.gl/RXA3eE
https://goo.gl/q3m1DU
http://goo.gl/34mEBl
http://goo.gl/uzZ1fZ
http://goo.gl/yuIKcp
http://goo.gl/pKJpkK
http://goo.gl/t9gI7S
http://goo.gl/fg7qtY
http://goo.gl/lPCaLt
http://goo.gl/Q4QCUj

De |junho 27th, 2016|Notícia|Comments Off on Janeth Arcain, uma atleta que não reconheceu limites