Aos 74 anos, Gilberto Gil é sinônimo de música brasileira

Um dos responsáveis por chamar a atenção da sociedade brasileira para o que tinham a dizer e para o que sentiam os jovens, por que não mesmo dizer que se trata de um dos fomentadores do comportamento e do gosto juvenil no nosso país, Gilberto Gil completou, nesse domingo (26), 74 anos.

Gilberto Passos Gil Moreira nasceu em Salvador, no ano de 1942, mas foi criado na cidade de Ituaçu, município do interior baiano que, na época, possuía menos de mil habitantes. Seu pai, José Gilberto Moreira, era médico e sua mãe, Claudina Passos Gil Moreira, professora primária. No ano posterior ao seu nascimento, nasceu sua irmã Gildina Passos Gil Moreira.

Foi em Ituaçu que Gil começou a se deslumbrar pela música. Ela se apresentou de três formas: por meio da banda da cidade; dos versos dos repentistas, que cantavam de improviso e, junto com os cordéis, agiam como cronistas daquele universo; e dos artistas do rádio, como Orlando Silva, Bob Nelson e Luiz Gonzaga.

Antes dos 10 anos, todavia, Gilberto e Gildina estavam novamente em Salvador, onde foram admitidos no Colégio Nossa Senhora da Vitória. Gil ingressou também na Academia de Acordeom Regina. Foi morando na capital da Bahia que Gil conheceu as canções praieiras de Dorival Caymmi. Ali também se deparou com os acordes e a técnica inovadora de João Gilberto e da Bossa Nova.

Em 1960, aos 19 anos, formou com amigos o conjunto Os Desafinados. Nesse grupo de música instrumental, Gil tocava acordeom e vibrafone e fazia apresentações em festas de aniversário, escolas e clubes de Salvador. Todavia, dado à forte influência que a música de João Gilberto exerceu sobre ele, Gil viu-se impelido a deixar de lado a sanfona e a se dedicar ao violão.

Em 1962, Gil passou a compor e tocar jingles. No ano seguinte, gravou quatro músicas de sua autoria, lançando o EP Gilberto Gil: sua música, sua interpretação. No final de 1963, conheceu Caetano Veloso e, logo em seguida, Maria Bethânia e Gracinha (Gal Costa). Já em 1964, juntamente com Tom Zé e outros artistas, os quatro realizaram o espetáculo, Nós, por exemplo, na inauguração do Teatro Vila Velha. Nesse mesmo ano, começou a escrever letras junto com Torquato Neto e Capinam, participou de um espetáculo dirigido por Augusto Boal, chamado Arena Canta Bahia, novamente ao lado Gal, Bethânia, Caetano e Tom Zé, e após participar de um festival em São Paulo foi convidado pela RCA Victor a lançar seu primeiro jingle, Procissão.

Durante todo esse tempo, Gilberto Gil viveu uma vida dupla, pois entre 1961 e 1964 cursou a graduação em administração de empresas na Universidade Federal da Bahia e, após concluir o curso, chegou a dar início a sua carreira de administrador.

Todavia, as composições, o violão, o palco, as parcerias, as ideias, enfim, a música já o havia escolhido. Em 1966, Gil ganhou destaque no programa O Fino da Bossa e o sucesso lhe rendeu um contrato para lançar um álbum. Antes disso, o músico passara por Recife para apresentar o espetáculo Individual e lá se deparara com a grande variedade rítmica existente em Pernambuco. Entre frevos, caboclinhos, maracatus, cavalos-marinhos, o que mais lhe chamou atenção foi a Banda de Pífanos de Caruaru, influências que levou de volta para o Rio de Janeiro e que passaram a constituir uma das bases do desejo de Gilberto Gil de dar “um som universal à música brasileira”.


Primeiro disco, festivais e o Tropicalismo

Gil e os Mutantes no III Festival da Música Popular Brasileira

Finalmente em 1967, é lançado seu primeiro álbum, Louvação, contendo arranjos de Dori Caymmi e composições de Caetano, Geraldo Vandré, Torquato Neto e Capinam. O disco foi elogiado pela crítica, mas Gil viria a definir os contornos de sua obra por meio de suas participações nos festivais de música transmitidos pela TV Record e pela TV Rio. No III Festival de Música Popular Brasileira, mesclando instrumentos clássicos, regionais (como o berimbau) e elétricos (guitarra e baixo), Gilberto Gil apresenta a síntese do que viria a ser a música pop brasileira. Com arranjos de Rogério Duprat e acompanhado pelos Mutantes (Arnaldo Batista, Rita Lee e Sérgio Dias), Domingo no Parque rompeu com os padrões vigentes na linguagem musical brasileira, apontando outros horizontes e sugerindo um novo paradigma, livre, aberto, ilimitado, parabólico.

A inovação provocadora e revolucionária em nosso cenário cultural virou movimento. O Tropicalismo, influenciado pelo movimento modernista da década de 1920, especialmente por Oswald de Andrade e sua metáfora da antropofagia como método de produção artística (em que o artista recebe as influências internas e externas a sua cultura, mastiga, deglute e devolve processado um novo produto, autêntico, nativo, reflexo fiel do Brasil), foi o catalizador de outras experiências artísticas do período, como a poesia concreta, o cinema novo, o cinema marginal, a arte plástica de Hélio Oiticica, o iê iê iê, o teatro do oprimido de Augusto Boal e o teatro orgiástico de Zé Celso Martinez Corrêa.

Juntamente com Caetano, Gil idealizou o Tropicalismo e transformou a música brasileira, descartando os purismos e apostando na mistura, identificando aproximações possíveis entre coisas aparentemente incompatíveis, como a Banda de Pífanos de Caruaru e os Beatles.

Em 1968, Gilberto Gil lança disco homônimo em que aparece na capa trajado de imperador. O álbum já revelava a mescla do tradicional com a pop-art, o que foi levado ao extremo com o álbum-manifesto Tropicália ou Panis et Circencis, também lançado em 1968.

A obra foi concebida de forma colaborativa em que todos (compositores, músicos e intérpretes) são apresentados como autores. A emblemática capa de Tropicália ou Panis et Circencis apresenta os membros do movimento: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes, o maestro Rogério Duprat, os poetas Torquato Neto e Capinam, e a bossa-novista de primeira hora Nara Leão.

Com canções como Parque Industrial, Geléia Geral, Mamãe Coragem e Bat Macumba, bem como uma regravação de Coração Materno, de Vicente Celestino, e referências a Carmem Miranda, em Baby, ambos nomes centrais da era de ouro do rádio, o disco busca retratar um país obsoleto e moderno.

A inovação não soou agradável aos ouvidos de parte do público e da crítica, mas as letras e arranjos elaborados, que apresentavam críticas explícitas e sutis à sociedade e ao contexto político vivido no Brasil, incomodaram mesmo a censura. Em dezembro de 1968, a ditadura militar prendeu Gil e Caetano e, em julho do ano seguinte, ambos foram exilados.


O exílio

Caetano e Gil em Londres

Já vivendo em Londres, é lançado seu terceiro álbum cujo primeiro single, Aquele Abraço, uma homenagem ao Rio de Janeiro em forma de despedida, tornou-se uma das músicas de maior sucesso de sua carreira.

Em Londres, apesar das saudades do Brasil, Gil continuou criativo, atuante e produtivo. Sempre ao lado de Caetano, Gil participou da 3ª edição do Festival da Ilha de Wight (1970), como uma das atrações principais. O festival, que durou cinco dias, contava com um setlist formado por nomes como The Who, The Doors, e Jimi Hendrix, guitarrista por quem Gil nutre grande admiração até hoje e que o influenciou bastante à época.

No ano seguinte, ao se envolver na organização do Festival de Glastonbury teve maior contato com reggae, ritmo jamaicano que estava em efervescência em Londres na época. Bob Marley, Jimmy Cliff e Burning Spear tornaram-se inspirações para o compositor brasileiro.

Ainda em 1971, o artista lançou um álbum somente com canções em inglês. Intitulado Gilberto Gil, é também conhecido como Nêga, o álbum impulsionou a carreira internacional de Gil, levando-o para Nova Iorque, onde realizou uma série de apresentações no Village Vanguard e em teatros universitários. A Philips inglesa contatou Gil com o objetivo de lançar um novo álbum. O cantor chegou a gravar algumas canções, porém, acabou abandonando o projeto, devido a possibilidade de retorno ao Brasil, o que ocorreu em janeiro de 1972.


O retorno e a consagração artística

A partir de então, percorreu as principais capitais do País com o espetáculo Gilberto Gil: Em Concerto, que durou dois anos e continha repertório de álbuns futuros.

O primeiro álbum gravado por Gil após seu retorno foi Expresso 2222, considerado seu último disco tropicalista, que contém a música Back in Bahia, canção que retrata a ferida de uma saudade. Enquanto estava em turnê, foi lançado o disco Barra 69: Caetano e Gil ao Vivo na Bahia, gravação do espetáculo feito pelos dois em 1969, no Teatro Castro Alves, antes da partida para o exílio.

Estando de volta ao Brasil, Gil ampliou sua gama de parceiros de composição e de palco, tendo agora entre eles Jorge Mautner, Nelson Jacobina, Jorge Ben Jor, Dominguinhos, Chico Buarque e Rita Lee. Porém é com seus conterrâneos que Gil vive outro momento marcante de sua carreira. Ao lado de Caetano, Gal e Maria Bethânia, ele sai em turnê intitulada Os Doces Bárbaros, que virou documentário e LP duplo ao vivo, um fracasso à época, mas hoje considerado obra-prima.

A década de 70 guardou outros dois momentos marcantes na carreira de Gil. O primeiro deles foi a gravação da chamada trilogia Rê, formada pelos álbuns Refazenda (1975), Refavela (1977) e Realce (1979), consideradas obras extremamente relevantes. O outro foi a apresentação no Festival Internacional de Jazz de Montreux (Suíça), acompanhado da banda A Cor do Som.

As décadas seguintes, serviram para consolidar o nome de Gilberto Gil como um dos maiores compositores, instrumentistas e cantores da música popular brasileira. Sucesso após sucesso, disco após disco, Gil multiplicou o número de fãs no Brasil e no mundo.

Gravou em 1993, junto com Caetano Veloso, Tropicália 2, no ano seguinte o Gilberto Gil Unplugged e no fim da década um disco em homenagem ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga. Nos anos 2000, lançou disco ao lado de Milton Nascimento e outro composto de releituras de músicas de Bob Marley.

Em 2015, gravou o disco Caetano Veloso e Gilberto Gil – Dois amigos, Um Século de Música, repleto de sucessos desses grandes artistas.

Aos 74 anos, Gil acumula quase 60 discos, entre gravações de estúdio e ao vivo, ganhando 8 Grammys e realizando inúmeras turnês internacionais. Ele foi também nomeado Artista da Paz, pela Unesco, Embaixador da FAO (ambos organismos das Nações Unidas) e condecorado pela Legion d’Honneur da França e pelo Swedden’s Polar Music Prize.

O cantor tem 8 filhos e é atualmente casado com Flora Gil. Em 2015, nasceu sua bisneta, Sol de Maria.


Política

Entre o final da década de 1980 e o início de 1990, Gil exerceu o mandato de vereador da cidade de Salvador. Contudo, sua carreira política ganhou notoriedade ao se tornar Ministro da Cultura entre 2003 e 2008, nos governos Lula. A frente do MinC, Gilberto Gil implantou políticas que se tornaram referências internacionais, como os Pontos de Cultura. A partir de sua gestão, a pasta ganhou maior relevância no governo federal e o Brasil assumiu papel protagonista em encontros, fóruns e seminários internacionais, por meio de ações e programas referentes a cultura digital, preservação e promoção do patrimônio cultural material e imaterial, valorização da diversidade cultural, reconhecimento dos saberes populares, entre outros.

Fontes:
https://goo.gl/iIAFCF
http://www.gilbertogil.com.br/

De |junho 30th, 2016|Notícia|Comments Off on Aos 74 anos, Gilberto Gil é sinônimo de música brasileira