Conheça a história da estudante que defendeu em seu TCC o reconhecimento da beleza da mulher negra, em uma comunidade quilombola do Pará

Em fevereiro deste ano, a estudante de artes visuais da Universidade Federal do Pará (UFPA), Edna Monteiro, apresentou o Trabalho de Conclusão de Curso na comunidade quilombola do América, no município de Bragança – PA.

Edna nasceu no estado do Maranhão, mas seus pais se mudaram para o município de Bragança quando ela ainda era jovem. Criada em uma família humilde, com 12 irmãos, seu pai era pescador descendente de indígenas e sua mãe, dona de casa descendente de escravizados africanos. Mesmo sem estudos os chefes da casa sempre incentivaram os filhos a estudarem.

A jovem iniciou seus estudos em uma escola pequena da região onde passou por muitas dificuldades. “Lembro que eu costurava meus cadernos, as folhas que sobravam de um ano escolar, eu arrancava e costurava e criava um novo caderno para estudar no próximo ano”, relembra a estudante. Apesar da situação precária, sua vontade de aprender dava forças pra continuar. No ensino médio, Edna casou, engravidou e teve os estudos interrompidos para cuidar da nova família. Anos após, a jovem deu continuidade. “Não foi fácil continuar, tive que enfrentar o autoritarismo e o machismo do meu marido, mas consegui vencer”.

Em 2004, divorciada e com dois filhos, a jovem conseguiu passar em um processo seletivo para cursar pedagogia na Universidade Estadual do Vale do Acaraú, uma instituição privada. Quatro anos depois, Edna se formou e, em 2009, iniciou sua pós-graduação em psicopedagogia.

Já em 2014, Edna entrou no curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Pará (UFPA) pelo sistema de seleção do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR). Nessa nova jornada, a estudante aprendeu a se olhar de uma forma diferente. “Quando cheguei nesse curso, eu estava cheia de preconceitos acumulados dentro de mim, eu mesma não me aceitava como cidadã negra, sempre alisei meus cabelos, pois os conceitos de beleza que aprendi eram outros. Minha mãe sempre me dizia para eu me casar com um homem branco para meus filhos não nascerem pretos”. Em artes visuais, a estudante passou a ser estimulada pelos professores a se aceitar como mulher negra.  

Ao cursar a disciplina “Sociedade e cultura” onde foram abordados temas como o corpo negro político, culturas africanas, racismo e violência contra a população afro brasileira. E foi nessas aulas que Edna conheceu o quilombo América. “Quando descobri que tinha um quilombo tão perto, decidi conhecer e lá encontrei pessoas iguais a mim”, relata a estudante.

Ao conhecer a comunidade mais a fundo, Edna percebeu que ali havia mulheres como ela, que sofriam com o racismo, por terem cabelo crespo, por carregarem os traços africanos. Então, a estudante observando estes fatos, decidiu ajudar essas mulheres, assim como ela foi ajudada. Com apoio das representantes da Associação do América, a estudante realizou durante dois anos, através do seu estagio supervisionado, trabalhos com essas mulheres: oficinas de pintura, escultura em argila e produção de artesanatos com materiais recicláveis.

Com o tema do TCC – Corpo e beleza da mulher negra e quilombola: experiência de cuidado, amor e reconhecimento de si, Edna Monteiro teve o objetivo principal de levar a esse grupo de mulheres quilombolas do América uma proposta de visibilizar o processo de auto reconhecimento da mulher negra adquirida no processo de ensino e aprendizagem.  Com seu relato de vida, as mulheres se reconhecerem como quilombolas e negras, passaram a ter orgulho da sua história e da sua beleza no conjunto de valores estéticos. O trabalho foi produzido através de entrevistas, coletas de dados, registros fotográficos. Foram realizados encontros nos fins de semana, com oficinas de corte de cabelos, aulas sobre a estética do cabelo feminino e cuidados.

Segundo Edna, os resultados foram visíveis nas mulheres da comunidade, mas seu trabalho por lá vai além do TCC. A estudante passará a realizar as oficinas voluntariamente duas vezes por mês e passará a trabalhar com a educação infantil em América, ensinando a história e cultura africana para desenvolver as relações étnico-raciais e promover a igualdade racial na escola quilombola.

O quilombo América se localiza no município de Bragança, possui mais de 200 anos de existência. Iniciou com a chegada do escravizado Américo, primeiro morador que veio fugido das senzalas do Maranhão. A comunidade foi certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2015 e possui uma associação (Associação Remanescente Quilombola do América), tendo a frente 13 mulheres quilombolas.

De |março 26th, 2019|Banner, Notícia|Comments Off on Conheça a história da estudante que defendeu em seu TCC o reconhecimento da beleza da mulher negra, em uma comunidade quilombola do Pará