Palmares 31 anos: memória, cultura e movimento negro no Brasil

O primeiro dia de eventos do mês comemorativo ao aniversário da Fundação Cultural Palmares (FCP) foi marcado por memórias. À mesa da roda de conversa Fundação Cultural Palmares: 31 Anos de Reconhecimento do Brasil Negro, três gerações de militantes dialogaram sobre a idealização e fundação da entidade e sobre os avanços alcançados nos últimos anos. A celebração ocorreu na noite desta segunda-feira (05) no auditório do Sesc Presidente Dutra, em Brasília.

Carlos Moura, primeiro presidente da FCP, abriu a cena amarrando historicamente a participação de cada uma das personalidades em mais de três décadas de história: Glória Moura – doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB), Ester Fernandes – liderança quilombola Kalunga de Teresina de Goiás, Vanderlei Lourenço – presidente da FCP, Januário Garcia – fotógrafo e presidente do Instituto Januário Garcia do Rio de Janeiro, e, inclusive, Nelson Inocêncio, membro do Conselho Curador da Fundação que esteve na condição de mediador da roda.
Moura relatou a trajetória de cada um no movimento para que a Fundação fosse criada e mantida, os encontros e desencontros entre os personagens em diferentes momentos e enfatizou a herança deixada por Garcia. “A caminhada não fica impune e nem só na nossa memória porque tem o Januário que registra de maneira implacável o que enfrentamos”, afirmou se referindo ao amigo e colega de missão.

Garcia, por sua vez, leu o que considera a síntese do seu trabalho de vida e abriu a exposição Herança Viva, que ficará disponível a visitação pública até 13 de setembro no Sesc Presidente Dutra. A mostra fotográfica é o resultado de 40 anos de dedicação ao registro dos resultados da diáspora para o Brasil e para o continente africano. Por meio da arte, Garcia oferece um presente, ao mesmo tempo em que educa a sociedade a um outro olhar sobre as pessoas negras.

O fotógrafo inspirou a todo o auditório ressignificando o conceito de identidade afro-brasileira. “Não somos negros sozinhos, não somos indivíduos fragilizados. Somos um povo de descendência africana que foi escravizado no Brasil”, disse alertando ao fato de que somente esta consciência será capaz de mover a população à unidade e ao fortalecimento do pensamento democrático.
Identidade e pertencimento – A Dra Glória Moura destacou a necessidade de que cada pessoa se reconheça dentro de uma identidade. “E que cada pessoa tenha respeitado o seu espaço de pertencimento. Isso demanda que as relações raciais sejam trabalhadas por todos os brasileiros, não apenas pelos negros do país”, afirma.

Foto: Mateus Santana 

Ester Fernandes comentou o que significa, na prática, os avanços alcançados pelas comunidades certificadas pela Palmares devido a sua autodefinição. “É importante e necessário o que chega para nós que estamos na ponta”, afirmou. Ela comentou sobre o que foi conquistado por sua comunidade situada em Teresina de Goiás e para todos os quilombos do país, porém alertou: “As melhorias chegaram, mas as demandas mudam com o passar do tempo, assim como as formas de resolvê-las”, destacou.

“Razão pela qual a Palmares não para”, disse o presidente Vanderlei Lourenço, detalhando sobre o comprometimento do quadro de funcionários da entidade. “É uma equipe da qual todos podem se orgulhar, estão dentro de um processo evolutivo onde muitas coisas boas aconteceram”. Lourenço explica que a FCP é diferente de qualquer instituição pública. “Foi o primeiro órgão do Governo Federal interessado em que o negro se enxergasse como protagonista da história do país da sua história”, concluiu agradecendo a todos.

Foto: Mateus Santana

Cultura de raiz na contemporaneidade – A cerimônia de abertura do 31º Aniversário da Fundação Cultural Palmares foi feita pelas apresentações do Grupo Capoeiristas do Rei – da Região Administrativa do Gama –, do músico Marvyn e de Hosana Oliveira, que trouxe uma coreografia a partir de passos de danças ancestrais, de diferentes comunidades do Leste Africano, como Quênia, Tanzânia, Ruanda, entre outros.

Logo na primeira canção – Respeita minha pele – Marvyn trouxe os pesares emocionais do negro, do navio negreiro à atualidade, passando pelas verdades tomadas por colonizadores e chegando ao desfazimento da realeza étnica. “Meu orgulho é negro e é assim que eu sou. Respeita meu cabelo crespo, essa batida é o swing do gueto”, cantou puxando um coro que situava o autoconhecimento e o respeito entre todos os que celebraram o momento.

Toda a programação foi cuidadosamente pensada para que o público alcançasse o valor da cultura e história afro-brasileira. As atividades alusivas ao 31º Aniversário da Fundação Cultural Palmares fazem parte de uma parceria entre a entidade e o Sesc Presidente Dutra e seguem até 13 de setembro. Até o dia 27 de agosto serão passados filmes com temática negra. Entre eles o documentário My Name is Now, de Elizabete Martins Campos, 2018, que concorre ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro na categoria documentário, e, o documentário SIMONAL – Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Cláudio Manuel, Micael Langer e Calvito Leal, 2009. Os filmes trazem respectivamente as histórias pessoais dos artistas Elza Soares e Wilson Simonal, ícones negros da música brasileira.

Os demais filmes são: Besouro (2009), dirigido por João Daniel Tikhomiroff, Estamira (2005) dirigido por Marcos Prado, Menino 23 (2016) dirigido por Belisario Franca, e, Pitanga (2017) com direção de Beto Brant e Camila Pitanga. As sessões acontecerão todas as segundas e terças-feiras a partir das 12h, no Teatro Sílvio Barbato. Confira abaixo, os dias de cada sessão.

SERVIÇO

31º Aniversário da Fundação Cultural Palmares

Sessões de cinema

06/08
Filme: Besouro
Ano de lançamento: 2009
Duração: 1h 25min
Direção: João Daniel Tikromiroff
Gênero: Drama
Nacionalidade: Brasil
Classificação: 14 anos

No começo do século XX, apesar da escravidão já ter acabado no Brasil há muitos anos, os negros ainda eram oprimidos pelos brancos. Enquanto isso, no Recôncavo Baiano, o menino Manoel Henrique aproveita sua infância para aprender uma tradição afro-brasileira proibida na época, a capoeira. Junto com os amigos Quero-Quero e Dinorá, o garoto toma aulas com o Mestre Alípio, considerado o líder comunitário dos negros da região.
Vinte anos depois, Manoel já é conhecido por todos como Besouro, um dos maiores capoeiristas da região. Assim como a maior parte dos negros, ele trabalha nas fazendas de cana do Coronel Venâncio, mas é o único que não se sente intimidado pelos poderosos. Certo dia, quando Besouro se distrai, Mestre Alípio é assassinado, como forma de diminuir a voz dos negros. Se sentindo culpado, e tendo a missão de dar continuidade ao trabalho de seu mestre, o aluno se isola para aperfeiçoar suas técnicas.

12/08
Filme: My Name is Now
Ano de lançamento: 2017
Duração: 73 min
Direção: Elizabete Martins Campos
Gênero: documentário, musical
Nacionalidade: Brasil
Classificação: 12 anos

Um filme musical com a cantora Elza Soares, ícone da cultura brasileira, numa saga que ultrapassa o tempo, espaço, perdas e sucessos. Elza e seu espelho, cara a cara, nua e crua, ao mesmo tempo frágil e forte, real e sobrenatural, uma fênix, que com a força da natureza transcende e canta gloriosamente.

13/08
Filme: Estamira
Ano de lançamento: 20049
Duração: 1h 21min
Direção: Marcos Prado
Gênero: Documentário
Nacionalidade: Brasil
Classificação: 14 anos

ESTAMIRA é a história de uma mulher de 63 anos que sofre transtornos mentais e que durante 20 anos viveu e trabalhou no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho. Carismática e maternal, Dona Estamira convive com um pequeno grupo de catadores idosos num local renegado pela sociedade, que recebe diariamente mais de oito mil toneladas de lixo produzido no Rio de Janeiro.

19/08
Filme: Simonal: ninguém sabe o duro que dei.
Ano de lançamento: 2009
Duração: 98 min
Direção: Calvito Leal
Gênero: Documentário
Nacionalidade: Brasil
Classificação: 14 anos

Numa época de talentos eternos e revolucionários, Wilson Simonal brilhou como ninguém e inovou como poucos.
Juntando qualidade, carisma, simpatia, suingue, charme, sensualidade e muito talento, ele se tornou a sensação do Brasil e ainda conquistou o público internacional.
De repente tudo acabou.
Boatos, acusações, mistérios, patrulhas e perseguições.
O que aconteceu com Wilson Simonal?

20/08
Filme: Pitanga
Ano de lançamento: 2017
Duração: 95 min
Direção: Beto Brant, Camila Pitanga
Gênero: documentário
Nacionalidade: Brasil
Classificação: 14 anos

A trajetória e a carreira de Antônio Pitanga, um dos grandes atores do cinema brasileiro, protagonista de momentos marcantes da cinematografia nacional.

26/08
Filme: Besouro
Ano de lançamento: 2009
Duração: 1h 25min
Direção: João Daniel Tikromiroff
Gênero: Drama
Nacionalidade: Brasil
Classificação: 14 anos

No começo do século XX, apesar da escravidão já ter acabado no Brasil há muitos anos, os negros ainda eram oprimidos pelos brancos. Enquanto isso, no Recôncavo Baiano, o menino Manoel Henrique aproveita sua infância para aprender uma tradição afro-brasileira proibida na época, a capoeira. Junto com os amigos Quero-Quero e Dinorá, o garoto toma aulas com o Mestre Alípio, considerado o líder comunitário dos negros da região.
Vinte anos depois, Manoel já é conhecido por todos como Besouro, um dos maiores capoeiristas da região. Assim como a maior parte dos negros, ele trabalha nas fazendas de cana do Coronel Venâncio, mas é o único que não se sente intimidado pelos poderosos. Certo dia, quando Besouro se distrai, Mestre Alípio é assassinado, como forma de diminuir a voz dos negros. Se sentindo culpado, e tendo a missão de dar continuidade ao trabalho de seu mestre, o aluno se isola para aperfeiçoar suas técnicas.

27/08
Filme: Simonal: ninguém sabe o duro que dei.
Ano de lançamento: 2009
Duração: 98 min
Direção: Calvito Leal
Gênero: Documentário
Nacionalidade: Brasil
Classificação: 14 anos

Numa época de talentos eternos e revolucionários, Wilson Simonal brilhou como ninguém e inovou como poucos.
Juntando qualidade, carisma, simpatia, suingue, charme, sensualidade e muito talento, ele se tornou a sensação do Brasil e ainda conquistou o público internacional.
De repente tudo acabou.
Boatos, acusações, mistérios, patrulhas e perseguições.
O que aconteceu com Wilson Simonal?

Horário: 12h
Local: Teatro Sílvio Barbato
Endereço: Setor Comercial Sul, Quadra 02, Edifício Presidente Dutra