Palmares 31 Anos: da Serra da Barriga à Contemporaneidade

A História do Brasil vem passando por um processo de ressignificação e, a versão do que foi vivenciado por negras e negros durante o período colonial, passa a ser contada por seus descendentes nos espaços sociais, ouvida e reverenciada pelo Estado. Até recentemente não reconhecida formalmente, essa versão sai da oralidade das comunidades remanescentes de quilombos e passa a se formalizar por diferentes meios constituindo a história oficial do país.

Nesse contexto, a história do Quilombo dos Palmares, o maior e mais populoso das Américas, foi abordado nesta quinta-feira (22) durante a celebração dos 31 anos da Fundação Cultural Palmares (FCP). O tema foi pauta da Roda de Conversa Parque Memorial Quilombo dos Palmares – Serra da Barriga, da qual participaram Vanderlei Lourenço, presidente da FCP, Carlos Moura, fundador e primeiro presidente da entidade, e, Zezito Araújo, historiador e ativista pela proteção do Parque Memorial Quilombo dos Palmares.

De acordo com Lourenço, a história de Zumbi dos Palmares e da Serra da Barriga – onde o herói viveu e morreu – é um recorte importante, pois, traz a tona a realidade do que acontecia no país no final dos anos 1500 e os seus impactos econômicos, sociais e culturais até a contemporaneidade. “Durante séculos foram apagados registros importantíssimos da História, impedindo o reconhecimento do povo negro brasileiro”, disse.

Lourenço destaca que somente há 130 anos a população negra alcançou a liberdade no país, porém impedida de um espaço digno onde fosse reconhecida e participante dos avanços econômicos. “Faltou ser incluído naquela lei um artigo garantindo que negras e negros fossem reconhecidos, indenizados e que tivessem igualdade de oportunidades”, enfatizou, se referindo à Lei Áurea ou Carta de Abolição da Escravatura.

A verdadeira liberdade – As pessoas negras só começaram a ter um contato de fato com a liberdade no Brasil em 1988, a partir da Constituição Federal que trouxe no Artigo 5º que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros […] a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. No mesmo ano nascia a FCP com a missão de proteger, salvaguardar e promover a cultura negra.

Resultado da luta do Movimento Negro, foi fundada por Carlos Moura, primeiro presidente da entidade, homenageado durante o evento desta quinta-feira. Ele recebeu de Lourenço, a Certidão de Nascimento da Fundação. “É muita emoção! Me trouxe a reflexão de todo um processo que mostra exatamente de onde viemos, o que trouxemos, o que estamos fazendo e sobre o legado que todos deixamos para o Brasil, evidentemente, junto às outras etnias do país”, afirmou.

Moura e Lourenço enfatizaram os valores por trás de cada período histórico. “Por séculos, o olhar de um dos grupos étnicos do país foi completamente ignorado, mas, 31 anos de movimentos e de articulações trouxeram importantes avanços”, pontuou Lourenço. “O passado justifica as ações necessárias no presente para que se alcance, no futuro, a superação de desafios como o racismo, os preconceitos e as intolerâncias”, concluiu.

Um novo olhar sobre o negro brasileiro – “Sem nós, negras e negros, o Brasil não existiria. Quem salvou o domínio português foi o povo africano”. Com essas palavras Zezito Araújo marcou a tarde de celebração. Pesquisador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal de Alagoas (Neab/UFAL), ele teve toda a sua vida acadêmica e profissional voltada à proteção da Serra da Barriga e trouxe para este momento as verdades do território palmarino.

O historiador afirma que as interpretações históricas ocorrem no imaginário social a partir do modo como são narrados os fatos e que, determinadas palavras podem ter sido utilizadas para manipular a realidade. “Hoje, quando se pensa em Palmares, se pensa em liberdade. Mas, aquela liberdade a ser alcançada dentro de um sistema opressor, onde o negro era visto como fujão”, refletiu. Mas, de acordo com ele é hora de se pensar o quilombo palmarino tal como ele existiu: constituído por pessoas livres, com autonomia sobre um território, sobre as decisões individuais e coletivas, e, que buscavam sair do trabalho escravizado.

Araújo apresentou uma tabela com as características das sociedades europeias e africanas daquele período, nunca antes comparadas. A primeira era patriarcal, de monocultura, defendia a posse individual da terra, focava na produção para exportação com uma visão capitalista e defendia o trabalho de pessoas escravizadas. A segunda, era constituída por um sistema matriarcal, de policultura, defendia a posse coletiva da terra, focava na produção de subsistência realizada por pessoas livres.

“Isso mostra como duas sociedades absolutamente opostas são capazes de conviver em um mesmo território”, disse Araújo, trazendo a informação de que o Quilombo dos Palmares foi essencial à dominação colonizadora. “A população palmarina, por estar situada na região mais produtiva do Brasil Colônia e por ser estrategicamente organizada, vendia os excedentes de seus plantios para a sobrevivência dos europeus”, disse.

Araújo defende que a releitura da história do Quilombo dos Palmares e a História do Brasil é um exercício que deve ser feito constantemente, de modo que todos os seus participantes sejam representados. “Jamais poderemos compreender a História do Brasil e da população brasileira sem aprender a História da África”, conclui.

Zumbi dos Palmares foi assassinado em 1695, um ano depois de o Quilombo dos Palmares já estava fragilizado pelos ataques holandeses, ocorridos por interesses relacionados à posse de terra, à perda de dinheiro – pela liberdade das pessoas negras que eram tidas pelos colonizadores como comerciáveis – e pelos movimentos negros em busca da garantia da liberdade.

Araújo é uma referência importante na articulação para que o sítio histórico da Serra da Barriga tenha se tornado protegido e para que o Parque Memorial Quilombo dos Palmares tenha sido construído e fundado. Ele participou dos estudos e levantamentos arqueológicos que contribuíram para consolidar o espaço também como Patrimônio Cultural do Mercosul. O próximo passo é alcançar que a Serra da Barriga seja reconhecida também pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.