Rota de turismo em Centro Histórico marca 190 anos da proibição dos batuques em Curitiba

Para marcar os 190 anos da proibição dos batuques e fandangos pela Câmara Municipal de Curitiba, em 24 de setembro de 1829, o Centro Cultural Humaitá realizou nesta terça-feira (24) o passeio Linha Preta. A rota turística conta com 21 pontos de memória afro-curitibana pelo Centro Histórico da capital. A proposta é compartilhar com o público informações sobre fatos e personagens invisibilizados pela História Oficial do estado do Paraná.

A Linha Preta tem como objetivo dar visibilidade à contribuição de negras e negros à construção de Curitiba. Nesse sentido, outros projetos também vêm sendo realizados no sentido de modificar o olhar social sobre a cultura negra. A Fundação Cultural Palmares (FCP) estuda a formalização de um termo de cooperação que garanta a preservação e visibilidade das tradições afro-brasileiras no município e no estado.

Já estão em estudo as possibilidades para a efetivação de projetos culturais em diversas linguagens, com temáticas negras que tenham impacto social relevante, além do programa Conhecendo Nossa História – Da África ao Brasil. Marco Antônio Evangelista, presidente substituto da FCP, afirma que a elaboração de parcerias como a que vem sendo desenhada é de suma importância. “Especialmente neste caso, pois, não há, no momento qualquer, atividade apoiada pela FCP no Sul do país”.

É necessário um olhar diferenciado para se trabalhar as tradições afro-brasileiras nesse estado que ainda é visto nacionalmente como composto por uma população exclusivamente branca, apesar de 28,5% da população se autodeclarar negra. De acordo com Adegmar José da Silva, o Mestre Candieiro, os 19,73% de negros presentes na sociedade curitibana trabalham no sentido de desconstruir a ideia de que Curitiba não tem negros.

Afrocuritibanos – Desde o ano 2018 a Prefeitura se empenha em produzir uma série de vídeos promocionais para homenagear a população negra local. O trabalho começou a ser feito em decorrência dos 130 anos da Abolição da Escravatura, dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos 30 anos da Constituição de 1988.

Nos vídeos produzidos aparecem fotografias, nomes e referências de personalidades que fazem parte da existência de Curitiba, mas que foram omitidas da História Oficial durante séculos. Também pesquisador, Candieiro relata uma série de fatos históricos em que os negros estiveram à frente, a exemplo da chegada desses povos nos anos 1670, vindos de São Paulo e do Paranaguá, antes mesmo dos europeus que só se fizeram presentes no território dois séculos depois.

Registros alcançados do Arquivo Público Municipal de Curitiba, cartórios e acervo sobre a História do Paraná, foram: a aquarela pintada por Jean Baptiste Debret em 1827, que mostra um afrocuritibano como personagem principal; fotografia de fundação do 13 de Maio, o segundo clube social negro mais antigo do país; uma obra de João Pedro Mulato, o primeiro cartunista do Brasil.

Ao longo da História, outras personalidades negras do estado surgem, a exemplo de Maria Águeda, ícone da resistência Afrocuritibana; de Panphilo D’Assumpção, fundador da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná (OAB/1912); de Emiliano David Perneta, príncipe dos poetas paranaenses e um dos fundadores do Simbolismo; de Enedina Alves Marques, primeira engenheira do Brasil (1945).

Resgate e reconhecimento – As informações foram levantadas pelo Centro Cultural Humaita – de Estudo e Pesquisa da Arte e Cultura Afro-brasileira – que vem subsidiando a Prefeitura para as atividades de conscientização. A partir dos estudos, a história de Curitiba passa a ser recontada, dessa vez com as provas da participação da população negra na sociedade local devidamente registradas.

De acordo com os produtores da série de vídeos (Capoeira e Afrocuritibanos), a cidade está levando se surpreendendo, pois são aspectos da verdade que nunca foram publicados. “Somente com informação essa falha da omissão histórica será superada. Na sua missão de promover a cultura afro-brasileira, a Palmares apoia toda iniciativa que contribua para a visibilidade do negro e de sua cultura como parte na identidade nacional”, completa Evangelista.