Evento ancestral, Bembé do Mercado lembra fim da Escravidão

Leia pesquisa realizada pelo colaborador da Fundação Cultural Palmares (FCP) Jackson Filho Araújo dos Santos sobre o Bembé do Mercado, festa cultural e religiosa realizada no município baiano de Santo Amaro da Purificação que lembra anualmente, no dia 13 de maio, a Abolição da Escravidão no Brasil. Entre a população acredita-se que a palavra bembé seria a forma como os negros chamavam o nome da Princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea. Alguns pesquisadores creem que a palavra seria uma corruptela de candomblé, resultando na expressão “bater o bembé”. 

O Bembé do Mercado é uma festa de tradição cultural e religiosa, que acontece há mais de cem anos em Santo Amaro da Purificação, que cultua e presta reverência aos Orixás, bem como celebra a liberdade do povo negro, que, diga-se de passagem, foi escravizado em um longo período de um determinado momento histórico brasileiro.

Apesar da tirania do poder atroz legitimado pelo Estado, durante muito tempo no Brasil, para a imposição arbitrária da cultura europeia sobre os negros trazidos do continente africano, de modo a subjugar a cultura dos mesmos, violentá-los, dentre outras mazelas, o povo negro, ainda que sob ferrenha opressão, resistiu e jamais deixou a cultura africana ceder aos preceitos morais e culturais ditados pela postura autoritária das tradições européias, tampouco deixou a cultura africana ceder às leis que fomentavam o preconceito, a discriminação com os negros e a segregação social.

Em 1889, ano seguinte após a “abolição” da escravidão, o som dos tambores sagrados começaram a ressoar não mais somente nos terreiros mais escondidos da sociedade como um todo, mas começaram ressoar nos espaços públicos, expandindo a religiosidade de matriz africana de modo a levá-la para além do seu nicho habitual e fazendo com que mais pessoas pudessem passar a tomar mais conhecimento a respeito daquilo que já era cultuado nos terreiros.

Assim então, foi dentro desse contexto que surgiu o Bembé do Mercado em Santo Amaro da Purificação, na região do recôncavo baiano, quando a denominação religiosa, Candomblé, começou a tomar as ruas, evidenciando para a população circundante a sua atmosfera teológica e simbólica, para comemorar a declaração oficial do Estado dando o aval que assegurava o direito da condição de liberdade para o povo negro. Desde então, a festa Bembé do Mercado passou a ser realizada anualmente em todo 13 de maio, data da assinatura da lei áurea.

A festa Bembé do mercado representa um momento que transborda emoção e alegria, uma vez que se trata de um momento de celebração do fim da escravidão, da liberdade de expressão e liberdade no que diz respeito à manifestação da religiosidade. Há uma crença comum entre os seguidores do candomblé de que se não houver o bater dos atabaques em Santo Amaro-BA em determinada época do ano, isto é, se não houver a realização do Bembé, algo de negativo possa vir a ocorrer.

Ocorre no Bembé do mercado a integração de vários terreiros de Santo Amaro, que, nessa época, vão para além dos territórios sagrados e levam às ruas de Santo Amaro a religiosidade africana que foi trazida ao Brasil, esta, que por sua vez, foi escondida em senzalas por um longo tempo. A integração dos terreiros levando religiosidade para os espaços públicos da cidade é elemento crucial e referencial da peculiaridade e singularidade desta prática centenária que é a festa do Bembé do Mercado. Existe, antes dos terreiros participantes da festa chegar ao Mercado, a preparação dos rituais sigilosos da religião de matriz africana. E a população de Santo Amaro, juntamente com os turistas que perambulam pela cidade nessa época, acompanha e observa uma grande celebração que acontece publicamente, na qual a religiosidade de matriz africana é manifestada com intensidade.

Há também, outra cerimônia, não menos importante, que acontece na Festa do Bembé do Mercado, que é a oferenda do presente principal que é dado aos Orixás das Águas. Existe um cortejo que percorre um itinerário que passa por locais simbólicos da cidade de Santo Amaro-BA, antes do momento de entrega da oferenda para os Orixás das Águas. O cortejo que leva o presente para as águas é acompanhado pelo povo, que por sua vez, segue o cortejo pedindo, por meio do canto, que a maré esteja boa para haver a permissão para a entrega da oferenda.

Em 1940 surgiu a perspectiva de se trabalhar com referências culturais, na qual defendia, sobretudo, o folclore e a cultura popular, e isso contribuiu significativamente para que o país se voltasse mais atenciosamente para a cultura de povos de matriz indígena e africana. Mas, muito se questionava a respeito da necessidade de formulação de uma política que fosse culturalmente mais abrangente, de modo a ampliar o campo da representatividade social, para assim evitar a preservação cultural tão somente restrita à cultura dominante, elitista e excludente, que ainda não contemplava efetivamente e, de maneira eficiente, a cultura de matriz africana. O que se buscava nessa época era a constituição de uma política patrimonial cultural mais somatória e inclusiva e não uma política patrimonial eliminatória e excludente. Esse quadro começou a receber uma alteração em 1980 de modo a fazer com que o IPHAN promovesse o tombamento do primeiro terreiro de candomblé do Brasil, o da Casa Branca, em Salvador/BA.

O Registro é um instrumento jurídico e seu efeito é a identificação, o reconhecimento e a valorização do patrimônio imaterial, levando em conta que a dimensão de patrimônio, nessa perspectiva, advém de processos culturais que construiu modos de vivências em convivências sociais que dizem respeito a maneiras de sobrevivência, de apropriação de recursos naturais e de relações com o meio ambiente. Com o Registro feito pelo o Estado, das vivências e manifestações culturais que recebem atribuição valorativa pela a comunidade que as pratica, as responsabilidades que cabem ao Estado aumentam e existe o dever do Estado de ajudar financeiramente a comunidade que produz a cultura registrada como patrimônio imaterial, de modo a fomentar tal cultura, para que assim possa difundir e dar visibilidade para a mesma, entre outras maneiras de disponibilizar apoio e fomento.

O Registro do Bembé do Mercado pelo o Estado da Bahia significa o reconhecimento do Poder Público de uma pertinente manifestação cultural que se manteve erguida ao longo do tempo, que se mostra enquanto um testemunho histórico cultural vivo da resistência das comunidades de matriz africana e de sua incansável luta desde o período da escravidão até os dias de hoje. O Bembé do Mercado é a demonstração da possibilidade da construção e manutenção de espaços que fazem justiça a religiosidade de matriz africana, até mesmo nos espaços públicos, bem como a transmissão da herança cultural afro-brasileira.

Referências:

http://agentesculturais.com.br/quilombo/uploads/2017/03/bemb%C3%A9_do_mercado.pdf
consulta mais recente realizada em 29/01/2018

http://santoamarohistorico.blogspot.com.br/2011/01/bembe-do-mercado_14.html
Consulta mais recente realizada em 29/01/2018

https://g1.globo.com/bahia/noticia/tradicao-ha-128-anos-festa-do-bembe-do-mercado-vai-ate-domingo-em-santo-amaro.ghtml
Consulta mais recente realizada em 29/01/2018