Estudantes de Richmond, nos EUA, visitam Fundação Palmares

Texto e foto: Marcelo Araújo

Estudantes do Earlham College, da cidade americana de Richmond, visitaram nesta quarta-feira (30) a sede da Fundação Cultural Palmares (FCP), em Brasília. Eles foram recebidos pelo presidente da instituição, Erivaldo Oliveira.

O grupo reúne sete alunos do Ensino Superior de nacionalidades americana, holandesa, brasileira e portuguesa. Eles são acompanhados por Cassio Muniz, professor assistente visitante do Departamento de Ciências Políticas do Earlham College. Os jovens cursam Ciências Políticas, Relações Internacionais, Biologia e Estudos Afro-Americanos.

A presença deles no Brasil resulta de um curso de seis meses chamado Avanços para as Comunidades Afro-Brasileiras. Eles estão no país para analisar as principais conquistas sociais para as comunidades negras, com foco na violência urbana, na realidade dos quilombolas e na política de cotas. O grupo ficará 22 dias em território nacional e irá a Brasília, Salvador e Rio de Janeiro, com direito a passagens por um terreiro e comunidades remanescentes de quilombos.

Em sua fala aos alunos, Erivaldo Oliveira explicou o trabalho desenvolvido pela Fundação Palmares para proteção do patrimônio afro-brasileiro. Ele destacou avanços como a tipificação do crime de racismo a partir da Constituição de 1988, e a política de cotas para vestibulares e concursos públicos, porém assinalou que ainda há muito a se conquistar. “Somos 54% da população brasileira, porém não ocupamos as instâncias de poder”, comentou.

Erivaldo destacou que a luta contra o racismo no Brasil precisa envolver toda a sociedade e não apenas os negros. Lembrou que fenômeno semelhante ocorreu nos Estados Unidos na década de 60 no combate à segregação racial. “O pastor Martin Luther King não teria feito a revolução se não contasse com o apoio de brancos que se posicionavam contra o preconceito”, frisou.

Oliveira também tratou da questão da intolerância religiosa, ainda forte no país. Contou aos jovens sobre o Mapeamento dos Terreiros, iniciativa realizada no Distrito Federal e que se estenderá a outras unidades da Federação. “A partir deste estudo, sabemos onde estão os terreiros e o estado pode promover políticas públicas como as de segurança. Ninguém pode se sentir envergonhado ou intimidado por freqüentar seu espaço de religiosidade”, afirmou.

Visão sobre o Brasil

O professor Cássio Muniz considerou a conversa bastante proveitosa. “Tivemos um panorama amplo sobre as políticas públicas brasileiras voltadas à população afrodescendente e dos desafios que ainda existem, como a titulação das terras quilombolas”, destacou Muniz.

A norte-americana Louisa Perry disse que aprendeu muito sobre a realidade do negro no Brasil. “Achei interessante que no país haja 11 ministérios com atuação voltada à questão racial”, observou.

A também americana Paloma Collazo Vargas se disse impressionada com as disparidades raciais no Brasil a partir da conversa com Erivaldo Oliveira. “Existe um grande abismo entre os direitos de brancos e negros aqui. Embora os afro-brasileiros constituam mais da metade da população, não possuem a mesma representatividade nos postos de decisão”, disse Paloma.

O português Ro Vieira contou que graças ao que ouviu do presidente da Palmares consolidou uma visão que já tinha sobre o racismo em países como o Brasil e sua terra natal. “A realidade das comunidades quilombolas é um reflexo desta situação. O povo negro precisa de políticas para superar estes problemas históricos”, falou Ro.

Única brasileira do grupo, a paulistana Isabela Bicalho assinalou que a reunião com Erivaldo Oliveira lhe chamou a atenção sobre aspectos velados do racismo no Brasil. “Por minha mãe ser ativista política, eu já percebia fatos como a omissão da história dos negros nas escolas. Fiquei muito empolgada com os terreiros e quero visitar e saber mais sobre eles”, afirmou.