Seu Louro, tratando mandioca no Onjó de farinha (Casa de farinha) do Parque Memorial Quilombo dos Palmares

Suzana Varjão

Seu Louro, 53 anos, diz que se “arrupia todinho” quando os visitantes adentram o Parque Memorial Quilombo dos Palmares para as celebrações do Dia Nacional da Consciência Negra. Ele é um dos moradores da Serra da Barriga (AL), marco do maior refúgio de escravos da América Latina. E, como dezenas de outros habitantes do município de União dos Palmares, onde se localiza a Serra, teve a vida transformada a partir da instalação deste equipamento público pelo Governo Federal.

Com “nove bocas” para alimentar, Seu Louro (Benonio de Moraes na certidão de nascimento) buscou nas matas da Serra um meio de sobrevivência. Plantou e colheu, mas a terra “cansou” e ele teve que procurar o sustento na capital alagoana, deixando a família para trás. Na “cidade grande”, foi pedreiro, carpinteiro… “Trabalhava com o que aparecia” para ganhar “uns trocados”, que mal davam para a comida e os bilhetes das passagens de ida e volta para casa.

– Era uma vida muito aperreada…

Quando as obras do Memorial começaram, Seu Louro foi chamado para trabalhar – e nunca mais deixou o local. Com a mulher e uma das filhas, mantém uma cantina caseira na área e presta serviços ao Parque. A casa, que era “fraquinha”, com “telhas caindo e cupim comendo”, foi reformada e ganhou energia elétrica. E assim, aos poucos, as preces que fizera para “parar num só lugar”, um lugar “de mais fartura”, foram sendo atendidas, e a família Moraes voltou a reunir-se em torno da mesa de jantar.

CIDADANIA – A saga de Seu Louro nada tem de incomum, ou isolada. Pelo contrário. Reflete objetivos e saldos de uma política que trata a cultura não como produto(s), mas como processo(s). E processos dinâmicos, que resgatam o passado para construir o presente e projetar o futuro. Mais que uma homenagem estática à população negra, a instalação do Parque Memorial Quilombo dos Palmares visa contribuir para a construção da cidadania da população que reside na área.

O aproveitamento da mão-de-obra local na construção, manutenção e administração do Parque é apenas um dos rastros desta política cultural. Presidente da Associação dos Remanescentes de Quilombos de Muquém, comunidade quilombola situada a poucos quilômetros do Memorial, Albertina Nunes da Silva, 36 anos, atesta os reflexos positivos da implantação desse núcleo dinamizador do turismo étnico para a autonomia econômico-financeira dos moradores da localidade.

TEIA PRODUTIVA – Albertina diz que o número de pessoas que visitam Muquém triplicou após a instalação do Parque, estimulando a comunidade a produzir mais e melhor para atender à demanda decorrente desse novo contexto geopolítico. Este ano, por exemplo, foi posto em andamento um projeto de manufatura de doces de mamão, em que os moradores estão sendo capacitados para gerir o ciclo produtivo – do plantio do mamoeiro à distribuição do doce, que já tem um cliente garantido: o Memorial.

Patrimônio vivo da cultura alagoana, a ceramista Irinéia Nunes da Silva, 60 anos, confirma

o fortalecimento do comércio a partir da implantação do equipamento público: “Ele leva conhecimento sobre o trabalho da gente pro resto do Brasil e do mundo”. O impacto indireto sobre a economia local é também sentido pelo setor hoteleiro, como informa Renata Pedrosa, uma das proprietárias do Hotel Santa Maria Madalena, cuja taxa de ocupação oscila positivamente com as atividades desenvolvidas na Serra.

PRESERVAÇÃO – Além dos fatores mais próximos da esfera socioeconômica, há outros ganhos, como o computado pelo coordenador do posto da Guarda Florestal da reserva, Diogo Palmeira, segundo quem o processo de desmatamento foi consideravelmente estancado após a instalação do Parque. E se a preservação ambiental não tem preço, as conquistas no âmbito simbólico são imensuráveis, como se pode deduzir pelas entrelinhas das histórias que gravitam em torno do Memorial.

São histórias de pessoas que atravessam os mares somente para pisar o solo sagrado do Quilombo dos Palmares, como a de um jogador norte-americano de basquete, que pediu licença para coletar um punhado de terra para levar para a avó, descendente de escravos; ou de Seu Louro, que a partir da implantação do Parque, tomou consciência de que havia mais do que o branco e o índio na composição de sua brasilidade, que ele expõe – de modo vacilante, mas expõe –, assumindo a “cor bem cheguei” de sua irmã.

“O Parque leva conhecimento sobre o trabalho da gente pro resto do Brasil e do mundo” (Irinéia Nunes, artesã).

Produção de fuxicos no Quilombo de Muquém

Patrimônio vivo da cultura alagoana, a ceramista Irinéia Nunes da Silva produz sua arte, reconhecida nacional e internacionalmente

Renata Pedrosa, uma das proprietárias do Hotel Santa Maria Madalena, relata oscilação positiva na taxa de ocupação do hotel com as atividades desenvolvidas em Serra da Barriga

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BOX

Legenda da foto que abre o box: Panorâmica do Parque Memorial Quilombo dos Palmares

Símbolo de resistência

O Parque Memorial Quilombo dos Palmares integra o rol de ações da política de preservação e promoção do patrimônio imaterial de matriz africana – o que significa dizer de uma parcela considerável da gente brasileira. Fruto de uma luta de mais de 25 anos do Movimento Negro no País, o equipamento foi implantado em 2007 pelo Ministério da Cultura (MinC), por meio da Fundação Cultural Palmares (FCP).

Primeiro parque temático cultural afro-brasileiro, o Memorial reconstitui o cenário de uma das mais importantes histórias de resistência à escravidão ocorridas no continente americano. É uma espécie de maquete viva, em tamanho natural, construída no território original da luta – a Serra da Barriga, para cujas matas milhares de escravos negros rebelados fugiram durante o período de dominação holandesa.

No local, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1985, foi fundada a ‘’república livre’’ de Palmares – o maior, mais duradouro e mais organizado quilombo das Américas. Nele, reinou Zumbi, o heroi negro assassinado em 20 de novembro de 1695, data em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra (veja detalhes desta história no site do Parque Memorial: http://serradabarriga.palmares.gov.br).

CERTIFICAÇÕES – Entre as ações articuladas de promoção da cultura afro-brasileira está o trabalho de identificação, demarcação e titulação de terras ocupadas por remanescentes de quilombos. Regulamentado pelo decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, o procedimento facilita a implementação de políticas públicas, resgatando e preservando a autoestima, a cultura e a ancestralidade negras dessas comunidades.

No Governo Lula, a Fundação Cultural Palmares emitiu certificados de autodefinição para 1.573 comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil e concentradas, principalmente, nos estados do Maranhão, Bahia, Pernambuco, Minas Gerais e Pará. Após a certificação, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) adota os procedimentos

necessários para a emissão do título definitivo de propriedade.

Legenda da foto que fecha o box:

Mestre Antônio Nunes em seu ateliê, no Quilombo de Muquém.

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* Matéria publicada na Edição Especial da Revista Palmares

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